Segurança

Ataque à Coldcard: como as carteiras foram drenadas e como proteger a sua

Um erro no gerador de aleatoriedade da Coldcard, presente desde 2021, deixou frases de recuperação fracas. Veja a linha do tempo, quem está exposto e como migrar.

Carteira de hardware e cartão de backup de recuperação, representando a proteção da frase-semente na autocustódia
Carteira de hardware e cartão de backup de recuperação, representando a proteção da frase-semente na autocustódia

Resposta direta

Entre 30 de julho e o começo de agosto de 2026, um atacante esvaziou mais de mil endereços de Bitcoin ligados a carteiras Coldcard, um modelo popular de carteira de hardware — o dispositivo físico que guarda as chaves fora da internet. As estimativas de prejuízo variam conforme a fonte, entre cerca de US$ 70 milhões e US$ 116 milhões. A causa não foi invasão física nem senha fraca: um erro no programa interno da Coldcard, presente desde março de 2021, fez o aparelho gerar a frase de recuperação — a "semente" que dá acesso a todo o saldo — com aleatoriedade insuficiente. Parte das chaves ficou fraca o bastante para ser adivinhada por força bruta, sem qualquer acesso ao dispositivo.

Este texto explica o que se sabe até agora, por que a falha aconteceu, quem está exposto e o que fazer — inclusive as lições que valem para qualquer carteira, não só a Coldcard.

O que se sabe até agora

  • Março de 2021: uma atualização de firmware — o programa interno do dispositivo —, a partir da versão 4.0.1, introduziu um erro de configuração. Ele passou despercebido por mais de cinco anos.
  • 30 de julho de 2026: começa o ataque. Em uma das ondas, cerca de 1.196 endereços foram esvaziados em 41 minutos. A empresa de análise on-chain TRM Labs descreve a primeira varredura como aproximadamente 594 BTC (cerca de US$ 38 milhões) retirados de cerca de 500 endereços em 25 minutos.
  • 31 de julho de 2026: a Coinkite, fabricante canadense da Coldcard, publica firmware de emergência para todos os modelos afetados e um aviso de segurança.
  • Início de agosto de 2026: novas ondas de saques. As estimativas de perda divergem: a Galaxy Research fala em cerca de 1.367 BTC (aproximadamente US$ 89 milhões) e 4.585 endereços; a TRM Labs, em cerca de 1.816 BTC (aproximadamente US$ 116 milhões) e mais de 5.200 endereços.
  • 20 de agosto de 2026: a Coinkite lança as versões 5.6.1 e 1.5.1Q, que vão além da geração de semente e reforçam a verificação da transação antes da assinatura e o isolamento de dados no aparelho.

Os números seguem em revisão porque a contagem depende de quais ondas de saque são atribuídas ao mesmo atacante e do preço do Bitcoin no momento de cada transferência. Trate qualquer cifra como aproximada.

Por que a falha aconteceu

Toda carteira nasce de um número secreto gigante e imprevisível. É dele que sai a frase de recuperação de 12 ou 24 palavras. A segurança depende de esse número ser realmente aleatório: se um atacante consegue reduzir o conjunto de possibilidades, ele pode testar uma a uma até achar a sua.

A medida dessa imprevisibilidade se chama entropia e é contada em bits. Uma semente de 12 palavras deveria ter 128 bits de entropia — um espaço de busca tão grande que varrê-lo é inviável. A Coldcard deveria obter esses bits de um gerador de números aleatórios por hardware: um circuito dedicado dentro do chip.

O erro de 2021 foi na montagem do software. Uma opção que deveria ligar o gerador de hardware passou a ser apenas testada quanto à sua existência, não quanto a estar ativada. Na prática, o pedido de aleatoriedade caía em um gerador de software fraco e previsível, alimentado apenas pelo identificador único do chip e por contadores de tempo — dados que não trazem imprevisibilidade real. A Coinkite estima a entropia efetiva resultante em cerca de 40 bits nos modelos Mk2 e Mk3 e 72 bits nos Mk4, Mk5 e Q, muito abaixo dos 128 bits esperados.

Com a entropia nesse patamar, um atacante pode reproduzir offline as sequências que o gerador fraco produziria, derivar os endereços correspondentes e comparar com a blockchain pública para descobrir quais têm saldo. Foi o que aconteceu: nenhum dos donos precisou clicar em link, instalar algo ou perder o dispositivo de vista.

Quais Coldcards estão expostas

O risco atinge sementes geradas no próprio dispositivo dentro da janela vulnerável. Veja por modelo:

ModeloFirmware vulnerávelCorrigido em
Mk2 e Mk34.0.1 a 4.1.9 (março de 2021 em diante)4.2.0
Mk4 e Mk5qualquer versão anterior à 5.6.05.6.0 (linha Edge: 6.6.0X)
Qqualquer versão anterior à 1.5.0Q1.5.0Q (linha Edge: 6.6.0QX)

Não são afetados os produtos TAPSIGNER, OPENDIME e SATSCARD, que usam outra base de código. Sementes criadas com pelo menos 50 rolagens de dado justas, independentes e que não foram registradas nem expostas não têm risco adicional por causa deste erro, segundo a Coinkite, porque nesse caso a aleatoriedade veio de fora do gerador defeituoso.

O que fazer agora se você tem uma Coldcard

Atualizar o firmware não conserta uma semente que já foi gerada. A correção só afeta sementes novas. Se a sua pode ter sido criada no dispositivo entre março de 2021 e a atualização, trate-a como comprometida e migre. O procedimento recomendado pela Coinkite:

  1. Instale o firmware corrigido, baixado apenas do site oficial, e confira a assinatura do arquivo.
  2. Gere uma semente nova no dispositivo já atualizado.
  3. Anote e verifique o backup dessa nova semente antes de depositar qualquer valor.
  4. Confira o endereço de recebimento na tela do próprio aparelho.
  5. Faça uma transação de teste com valor pequeno.
  6. Só depois de confirmar, mova o restante dos fundos para a carteira nova.
  7. Guarde o backup antigo até concluir a migração.

Uma passphrase BIP-39 forte e única — uma palavra-senha extra, somada à frase de 12 ou 24 palavras — cria, na prática, uma carteira separada e oferece proteção temporária. Ainda assim, a Coinkite recomenda migrar assim que possível. Já o multisig — esquema em que uma transação exige a assinatura de vários dispositivos — só ajuda se as chaves não vierem todas de Coldcards afetadas.

O que o caso ensina para qualquer carteira

O problema foi específico da Coldcard, mas as lições servem para qualquer autocustódia.

Aleatoriedade é a base de tudo. Onde a carteira permitir, acrescente a sua própria fonte de entropia — como as rolagens de dado que a Coldcard aceita — em vez de confiar cegamente no gerador do aparelho.

Verifique de forma independente. Um backup só é backup depois de testado: restaure a semente em outro dispositivo compatível, confirme que ela chega aos mesmos endereços e repita esse teste de tempos em tempos. A rotina está detalhada no texto sobre custódia, acesso e permissões.

Mantenha o segredo fora de qualquer aparelho conectado. Nunca fotografe nem digite a frase de recuperação em site, formulário ou aplicativo. Os primeiros cuidados estão em o que é uma carteira cripto e como usá-la com segurança.

Distribua a confiança. Para valores maiores, um multisig com dispositivos de fabricantes diferentes evita que uma única falha — de hardware, de firmware ou de fornecedor — derrube tudo.

Tenha um plano de recuperação testado. A hora de descobrir se você consegue restaurar a carteira não é durante uma emergência. O guia de autocustódia em 2026 detalha as três decisões: escolher a carteira, proteger o backup e testar a recuperação.

Vale lembrar que uma aprovação no dispositivo protege a chave, mas não valida a estratégia nem o destinatário — ponto tratado no texto sobre automação e assinatura por hardware.

Checklist

  • Identifique o modelo da sua Coldcard e a versão de firmware instalada.
  • Descubra quando e onde a sua semente foi gerada; na dúvida, trate-a como exposta.
  • Atualize o firmware pelo site oficial e verifique a assinatura do arquivo.
  • Gere uma semente nova no dispositivo corrigido e teste o backup antes de depositar.
  • Migre os fundos com uma transação de teste primeiro.
  • Reavalie esquemas de multisig compostos apenas por Coldcards afetadas.
  • Não use a passphrase como solução definitiva; ela é uma ponte, não um conserto.
  • Desconfie de "suporte" que aparece por mensagem oferecendo ajuda com a migração.

Perguntas frequentes

Preciso agir se comprei a Coldcard depois da correção?

Se a semente foi gerada em firmware já corrigido (5.6.0 ou 1.5.0Q em diante, ou 4.2.0 nos modelos antigos) e nunca esteve em versão vulnerável, ela não é afetada por este erro. Confirme a versão antes de assumir isso.

Restaurar minha semente antiga no firmware novo resolve?

Não. A fraqueza está na semente em si, não no firmware. Restaurá-la em um aparelho atualizado mantém o problema. É preciso gerar uma semente nova e mover os fundos.

Usei dados para criar minha semente. Estou seguro?

Segundo a Coinkite, sementes criadas com pelo menos 50 rolagens de dado justas, independentes e que não foram registradas nem expostas não têm risco adicional por causa deste erro. Se você usou menos rolagens ou não tem certeza, migre.

O dinheiro roubado pode ser recuperado?

Transações em Bitcoin são irreversíveis. Analistas on-chain relatam que parte dos fundos ficou parada em poucos endereços do atacante, com uso posterior de misturadores. Não há garantia de recuperação, e não existe suporte central capaz de restituir.

Conteúdo informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, oferta ou solicitação de compra ou venda de ativos.

Fontes: Coinkite — aviso de segurança sobre geração de semente; Coinkite — atualização 5.6.1 / 1.5.1Q; Coinkite — detalhamento técnico da falha de entropia; The Hacker News — Coldcard hardware wallet flaw; TRM Labs — inside the Coldcard hack; CoinDesk — cold-wallet attack spreads. Consulta realizada em 3 set. 2026.

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Uma boa leitura de mercado combina dados, contexto e limites claros de risco.